quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Rota Extremo Sul - RS

Expedição de Inverno - Parte 6
A saída de São José do Norte foi realizada em balsa, sendo necessário atravessar a histórica e famosa Lagoa dos Patos, a maior laguna do Brasil e a segunda da América Latina, em direção à Rio Grande. Enquanto acadêmico de História, meu conhecimento sobre o local estava relacionado à Revolução Farroupilha, quando a região era de extrema importância estrátegica, principalmente por sua ligação ao mar, tendo assim o porto de Rio Grande uma relevância maior, uma vez que por ele desembarcavam os reforços da Marinha Imperial Brasileira na época do conflito.


São José do Norte ficando para trás.

Lagoa dos Patos, Rio Grande ao fundo.
Apenas pra destacar o fator histórico, vale lembrar ainda que os farrapos necessitando de um ponto de ligação para o Oceano Atlântico com a finalidade de manter a supremacia na região, realizam uma manobra extremamente ousada e que foi muito bem encenada no seriado A casa das sete mulheres, onde a partir da coordenação de Garibaldi na construção de duas embarcações de guerra que são lançadas na Lagoa dos Patos, contudo, sem sucesso em sua primeira tentativa por causa da armada imperial, a altenativa para conseguir essa ligação ao mar a partir de Laguna/SC seria:

"[...] levar os barcos pela Lagoa dos Patos até o Rio Capivari, e dali, por terra, sobre rodados especialmente construídos para isso, até a barra do Tramandaí, onde os barcos tomariam o mar. Assim foi feito, mas não sem dificuldades.
Os Farrapos despistando a armada imperial conseguem enveredar pelo estreito do rio Capivari e passam os barcos a terra, em 5 de julho de 1839. Puxando sobre rodados, os dois lanchões artilhados, com cem juntas de bois, atravessam ásperos caminhos, pelos campos úmidos - em alguns trechos completamente submersos, pois era inverno, tempo feio com chuvas e ventos, tornando o chão um grande lodaçal. Cada barco tinha dois eixos e, naturalmente, quatro rodas imensas, revestidas de couro cru. Piquetes corriam os campos entulhando atoleiros, enquanto outros, cuidavam da boiada.
Levaram seis dias até a Lagoa Tomás José, vencendo 90 km e chegando a 11 de julho. No dia 13, seguem da Lagoa Tomás José à Barra do Rio Tramandaí, sob o Oceano Atlântico, e, no dia 15, lançam-se ao mar com sua tripulação mista de 70 homens.
[...] Por fim, a 14 de julho de 1839 os lanchões rumavam à Laguna para atacar a província vizinha. Na costa de Santa Catarina, próximo ao rio Araranguá, uma tempestade põem a pique o Farroupilha, salvando-se milagrosamente uns poucos farrapos, entre eles o próprio Garibaldi."
Desculpe o longo trecho citado, mas espero a compreensão dos leitores. A história jamais pode ser negligênciada.

Marco já havia realizado a travessia neste mesmo local em sua viagem anterior ao Chuy. Mas para mim, tudo era novidade. De alguma maneira, sentia uma sensação diferente ao estar em um lugar onde acontecera fatos históricos que marcaram uma época que hoje é muito lembrada, principalmente no Rio Grande do Sul, onde a valorização da história e costumes são ainda mais presentes.

A travessia levou cerca de 30 minutos até chegarmos no atracadouro de Rio Grande. Desamarramos as bicicletas da proa e novamente pisamos em terra firme. Sendo uma cidade relativamente grande comparada àquelas que haviamos passado nos últimos dias, tivemos que pedalar alguns quilômetros para encontrar a saída do munícipio, no caminho registramos algumas peculiaridades de Rio Grande.

Porto de Rio Grande/RS

Chegando no histórico porto da cidade de Rio Grande

As bicicletas na proa da balsa.

Sendo orientados pelos moradores locais vamos seguindo até Quinta, uma vila distante cerca de 20 km de onde desembarcamos, distância percorrida entre vários bairros periféricos de aparente pobreza, ao menos no quesito habitacional. Existe até mesmo uma ciclovia na avenida principal que leva para as BR 382 e 471, contudo, esse espaço ainda não está asfaltado, mas percebemos um número significativo de ciclistas utilizando um direito deles.

Antes do trevo entre a 382 e a 471, uma placa informa que o Chuí estava a 225 km, pouco pra quem está acostumado a pedalar longas distâncias. Neste trecho nos deparamos com obras na rodovia e um grande número de caminhões, pra nossa sorte eles seguem pela BR 382, sentido Pelotas, Porto Alegre.

Antes do trevo para a Rota Extremo Sul
Caminhões pelo caminho

Seguimos para a BR 471, conhecida como Rota Extremo Sul por ser caminho para o Chuí, a famosa cidade que a maioria dos brasileiros pelo menos já ouviu falar a partir da expressão"do Oiapoque ao Chuí", alusiva aos supostos extremos do país. O ponto mais ao Norte do Brasil não é Oiapoque mas sim Monte Caburaí, já o ponto mais ao Sul é mesmo a pequena cidade de Chuí, nosso último destino em terras brasileiras.

BR 471 - Rota Extremo Sul

O primeiro dia nesta Rota foi marcado por alguns fatores, o vento forte anunciava que a chuva voltaria a cair após uma pequena trégua. O vento a princípio não nos atrapalhou, muito pelo contrário estava totalmente a favor, isso ajudou muito, principalmente quando a BR 471 é plana até a fronteira com o Uruguay. Com pouquíssimas cidades e povoados pelo caminho era quase certo que teríamos que preparar o almoço, mas com aquele vento não seria tarefa fácil.

Até existem pontos de ônibus cobertos na estrada, contudo, sem proteção ao vento. Demoramos muito tempo pra encontrar um lugar onde fosse possível manter o fogareiro aceso. Sem opção, decidimos parar em um terreno ao lado da rodovia onde havia algumas tubulações de concreto, estava longe de ser o lugar ideal, mas após verificar o ambiente, resolvemos parar e preparar o almoço. Mais uma vez, macarrão instantâneo, mesmo sendo prático e rápido de fazer, o vento tratou em retardar o processo. Alguns minutos a mais do que de costume e finalmente fica pronto e logo é devorado.


Parada estratégica para o almoço


Tudo muito prático

O almoço do Marco estava mais caprichado.

O vento a favor trás com ele a chuva para a região sul do estado. Mal havíamos terminado o almoço e já começava a cair os primeiros pingos. Lá vamos nós colocar a capa do alforje, a última vez que havia utilizado a mesma foi em um pequeno trecho antes de Passinhos. Mas agora o tempo mudara completamente, pelo jeito choveria e não seria pouco. Seguimos e logo apareceu mais uma placa, dessa vez, digna para um registro histórico. Informava que era a Rota Extremo Sul e que o Chuí estava a exatos 200km.

Rota Extremo Sul
As pastagens pelos campos abertos são utilizadas para a criação de gado e também cultivo de algumas culturas, por exemplo de arroz, lembrando que o RS é o maior produtor nacional deste tipo de grão. Vamos apreciando essa vida campestre enquanto pedalamos e enfrentamos a chuva. A fauna da região, aquela que é possível observar, é marcada por diversas aves, em determinado ponto, centenas delas estavam acompanhando o trator que preparava a terra para a plantação, aqui avistamos finalmente um flamingo.


Criação de gado


Boiada cruzando a pista


Ainda tem dúvida se estava frio?

Carcará
Preparação da terra para o cultivo

O frio também voltou e dessa vez mais intenso. Pra ajudar o vento mudou de direção e nos atingia meio de frente/lado, de qualquer forma, aquela situação favorável depois de Rio Grande, foi muito breve. Chegamos com chuva no Taim e procuramos um estabelecimento para comprar algo doce, de preferência bolacha e paçoca. O dono do pequeno mercado nas margens da estrada nos informou que a Reserva Ecológica estava a 20 km aproximadamente e o próximo posto a 50 km. Decidimos que encerraríamos o dia neste posto.

Chuva, vento contra e a flora típica do Taim

Na estrada passa um pouco das 5 horas da tarde e buscamos aumentar o ritmo pra chegar na Reserva do Taim ainda com claridade para poder observar seu ecossistema, e sobretudo, as capivaras, símbolo da Reserva onde chegamos às 18:07, horário em que foi tirada a foto da placa indicando a entrada. Chuí estava a 158 km e Montevideo 498km.

Reserva Ecológica do Taim

Assim que entramos no trecho da rodovia que passa pela Estação Ecológica do Taim placas alertam para a presença de animais na pista, entre eles, a Capivara, que merece uma placa particular de aviso. Não demoraria para saber o porque da insistência das informações relacionadas aos cuidados com os animais.


Eles avisam..


.. e avisam de novo!

10 minutos depois do ingresso na Reserva, avistamos as primeiras capivaras, isso porque o tempo foi generoso e ainda havia claridade. Ficamos contentes em avistar mais um tipo de animal, viagem repleta de vida por todos os lados e a Reserva do Taim só veio a complementar ainda mais.

Capivaras

Avançando pela reserva vamos encontrando mais e mais capivaras por todos os lados, infelizmente até mesmo no acostamento, em todo o perímetro do local foram contabilizadas 17 capivaras atropeladas. Na extensa área às margens da rodovia existem lagos e banhados que servem também para o deslocamento desse tipo de animal, embora, avistamos a maioria deles nos campos abertos, se encontravam em bandos e muito próximos um ao outro buscando se aquecer de alguma forma do rigoroso inverno.

Algumas se assustam e mergulham
Juntas na tentativa de se aquecer diante do frio intenso

Conforme informações, "A planície costeira do Rio Grande do Sul apresenta áreas de grande expressão no contexto ambiental do extremo sul do Brasil, originada pelos avanços e recuos do mar. Os banhados do Taim apresentam diversificados ecossistemas e estão representados pelas praias lagunares e marinhas, lagoas, pântanos, campos, cordão de dunas e campo de dunas."

E "[...] Diante dessa variedade ambiental, podem ser encontradas várias espécies de animais, tais como o João-de-barro, tartarugas, tuco-tuco, capivaras, ratão-do-banhado, jacaré-de-papo-amarelo e abundante ave-fauna. A flora, igualmente diversa, apresenta: figueiras, corticeiras, quaresmeiras, orquídeas, bromélias, cactos, juncos e aguapés."

A quantidade de capivaras presentes no local é enorme, fizemos várias paradas para fotografa-las. Algumas ao lado do acostamento se assustavam com a nossa passagem. Para minha surpresa, elas emitem um som muito parecido com o latido do cachorro. Percebemos que fazem isso na tentativa de nos afastar e demonstrar que o território já tem dono. Mesmo assim Marco tentou chegar o mais próximo possível para ter melhores imagens. Na primeira passagem do Marco pelo local no começo do ano estava de noite e não teve a mesma oportunidade de ver essa variedade de espécies.

Marco na tentativa de melhores ângulos.

Falando em sustos, quando já estava ficando escuro surge do nada uma capivara a 5 metros na minha frente, ela certamente estava ao lado do acostamento e se assustou com a nossa presença e assim atravessou rapidamente a pista. Foi algo tão inusitado que minha primeira reação foi gritar na intenção de espantar o animal para que não viesse em minha direção. Eu não queria pagar pra ver se ela morde ou não. Depois foi só risada lembrando do episódio.

Quando a escuridão era total o cenário ficou assustador, parecndo filme de terror. Talvez esteja exagerando um pouco, mas a situação era a seguinte; noite, muita chuva e frio em um lugar completamente deserto, não se avistava nenhum sinal de habitação por perto, afinal estávamos em uma Reserva Ecológica. A sorte é que a vontade de chegar à algum lugar era maior do que a capacidade de ficar pensando ou melhor associando àquilo a um roteiro de filme. Apenas comentei com o Marco que não teria audácia de passar sozinho a noite neste trecho. Não era questão de ser medroso, mas é preciso ter cautela em tomar determinadas decisões. Apenas no campo das suposições, imagine se ocorre algum imprevisto e não tem quem te ajude diante de tais condições. Sinistro!

O posto de combustível mencionado pelo dono do mercadinho lá no Taim custava a aparecer, o pedal parecia eterno. A chuva sem parar era a única companhia, nem mesmo os sons dos animais que o Marco veio me falando a viagem inteira que eu escutaria na Reserva foram ouvidos, o caminho todo em silêncio e alguns poucos carros na estrada. Mas o farol da bicicleta de repente reflete em alguma coisa metros à frente. Era um caminhão que saiu da pista e acabou caindo nas margens do acostamento, região marcada por banhados, um carro, possivelmente fazendo a escolta da carga estava ao lado. Aparentemente sem necessitar de ajuda, seguimos.

Finalmente alguns quilômetros depois, uma torre iluminada parece sinal de vida. Mas foi alarme falso. Sem desanimar, continuamos a jornada na busca de abrigo, um local para montar acampamento, quando finalmente começam a surgir algumas casas. Com aquelas condições climáticas restou analisar se alguma residência poderia nos permitir a pernoite. Nenhuma era convidativa até que Marco resolveu perguntar em uma delas a respeito do posto de combustível que ainda não aparecera. Somos informados que está a menos de dez quilometros.

A informação recebida sobre o posto não estava errada e finalmente avista-se a bandeira da Ipiranga. Chegamos e os funcionários estavam dentro da loja, fomos verificar um possível local coberto para montar as barracas, infelizmente as opções em um primeiro momento não eram boas. Resolvemos perguntar aos funcionários se existia algum lugar, sem antes explicar rapidamente sobre a viagem. Somos orientados e autorizados a ficar em um restaurante abandonado bem ao lado.

O restaurante mais parecia um espólio de guerra. A porta principal dava acesso ao interior que também lembrava o Titanic submerso após dezenas de anos. Como estava chovendo e havia muitas goteiras, procuramos um lugar mais propício para erguer acampamento. As janelas não tinham vidros e o vento também se fazia presente tornando o ambiente mais frio. Mas rapidamente as barracas foram montadas.

Bem vindo ao Titanic submerso

Restaurante abandonado no Posto do Português.

O local onde nos encontrávamos era o Posto do Português no quilômetro 530 da BR 471 em Curral Alto. Aberto até às 22 horas o lugar conta ainda com banheiro, incluindo chuveiro quente. Na loja de conveniência alguns produtos e salgados. Fui tomar banho já que a noite anterior passou em branco em razão do frio e a canseira em São José do Norte. Preparo minha roupa e tudo mais, quando chego no banheiro, ocupado. Certamente alguém fazendo o número 2. Com a chuva e o frio, eu que não iria esperar, voltei pra barraca, fiz minha janta e dormi assim mesmo, afinal, com tanta água durante o dia todo, o corpo aguentava esperar mais algumas horas.

Os funcionários bem receptivos nos informaram que o local era tranquilo e o máximo que poderia acontecer seria a presença de um policial, pastor alemão, mas que ele não apresentava perigo. E realmente não foi uma ameça, apareceu logo depois e apenas cheirou as coisas. Noite foi sossegada, com muita chuva é claro.

No posto nos deparamos com um caminhoneiro e comentamos sobre o acidente visto poucos quilômetros atrás. Esse motorista, muito gente boa, era da mesma empresa da carreta que estava há alguns dias naquele estado aguardando o guincho para a remoção.

De manhã a chuva continua. Começamos a desmontar acampamento quando aparece o dono do posto e puxa conversa. Entre os assuntos, menciona o bom faturamento do dia anterior, isso explica em partes o movimento na rodovia, que segundo o Marco estava bem maior do que a outra vez em que esteve na região. Certamente julho, mês de férias, essa parte do país receba mais visitantes.

Logo depois aparece o motorista que já conhecíamos e também o da carreta acidentada, que saiu ileso. Junto estava o corretor de seguros para registrar o sinistro. Foram alguns minutos de histórias contadas e muitas risadas. Nos despedimos do pessoal e seguimos para o último dia de pedal no Brasil.

Posto do Português
Foi uma manhã extremamente fria e com chuva forte em alguns trechos. A paisagem não mudara muito em relação ao dia anterior. Após 39 km pedalados surge o posto da Megapetro (Km 569) e ao lado um restaurante. Sem pensar muito paramos pra almoçar mais cedo, na verdade era meio dia, mas nos últimos dias nosso almoço era feito bem mais tarde. O cardápio não tinha muita variedade e a opção mais barata era uma minuta com arroz, bife, batata frita e salada. A comida estava boa mas pelo fato de não ser farta e o valor alto, deixou a desejar.

Após o almoço o frio era quase insuportável, ambos com touca ninja para evitar a perda de calor. Chovia e ventava forte. Marco pede um tempo e faz uma ligação pra casa no telefone público do posto. Não aguento ficar parado e sigo pra estrada, vou em um ritmo mais tranquilo e logo o Marco me alcança e vamos avançando meio a um tempo que oscila entre chuva e muita chuva. Apenas no final da tarde o clima melhora, fica apenas nublado. No caminho, pastagens, criações de gado e outras aves diferentes. Ainda encontramos mais animais mortos no acostamento, entre eles um boi que pelos destroços ao redor foi atingido por um um veículo. Isso nos fez lembrar a versão do motorista da carreta que, segundo ele, uma vaca teria atravessado na frente do caminhão.

No outro lado da linha, muito sol em Itanhaém/SP.

Sem muita sorte.

Paisagens campestres e mais chuva.


Vento contra


Paisagem
Mais uma noite na estrada quando finalmente encontramos uma cidade, Santa Vitória do Palmar, antes dela apenas um vilarejo com o nome de Arvoré Só e depois um posto de combustível onde aproveitamos para calibrar os pneus. Este é o terceiro e último posto que encontramos na Rota Extremo Sul, um restaurante ao lado pode ser uma opção de parada pra você que pretende um dia fazer esse roteiro.

Sem chuva, o frio nos acompanha até S. Vitória do Palmar, tentamos registrar o portal da cidade, mas a escuridão não ajudou muito. Também fotografamos a placa indicando que restavam apenas 22 km para o Chuí. E chegar até a cidade fronteiriça não foi fácil, minha vista já não estava muito boa após vários dias pedalando no escuro e recebendo luzes fortes direto no olho e a canseira era aparente. Marco vai seguindo na frente, atrás vou me esforçando para manter o ritmo e finalmente as placas internacionais surgem na estrada.

As informações sobre à aduana brasileira indicava que parte do nosso objetivo estava sendo concluído. Logo depois da alfândega a placa que tanto esperávamos, divisa de países; Brasil / Uruguai. Claro que paramos para tirar várias fotos, mesmo no escuro fizemos questão de fazer esse mais esse registro histórico.

Mais uma fronteira. Brasil/Uruguai

A sensação era de felicidade, é claro. Mas o frio intenso não nos deixava ficar muito tempo parados e logo estavámos em direção ao centro da cidade. Após a placa mencionada vai ter um posto Esso, siga a direita e logo estará no Chuí, propriamente dito. A primeira coisa que fizemos foi procurar um hotel, era quase dez horas da noite quando chegamos ao Hotel Bianca, guardamos as bicicletas na garagem e subimos para o quarto. Finalmente tomei banho e fui fazer a janta, logo capotei na cama.

No hotel algumas pessoas vieram conversar conosco e dizer que passaram pela a gente na estrada. Ficaram surpresas ao saber de onde estávamos vindo, nos parabenizaram, sem antes ouvir um pouco da nossa história sob duas rodas. Esse bate papo aconteceu meio a uma enorme sala para os hóspedes com direito a lareira em plena atividade, sinal de que o frio não estava pra brincadeira.

Chegamos no Chuí dia 25 de julho de 2010 após 1255 km pedalados.

Na manhã seguinte arrumamos nossas coisas e acertamos a conta, 30 reais a diária, coitado do meu bolso, a minha sorte é que vinha economizando uma vez que estava fazendo o próprio almoço. Na saída do hotel, com o tempo bom e muito sol começamos a notar as diferenças que circudam a cidade.

O comércio, principal atividade do município tem suas fachadas escritas nos dois idiomas, português e espanhol. Brasileiros e uruguaios são facilmente encontrados nas ruas em que estabelecimentos estão com produtos no preço da moeda vizinha, ou seja, peso uruguaio, como presenciamos no pequeno mercado onde comprei várias bolachas da Faville, indústria de Marechal Rondon/PR, por apenas R$ 0,50 a unidade, fiz um estoque delas. Enfim, eu que sou morador de Foz do Iguaçu, tríplice fronteira nunca tinha visto nada parecido. É uma mescla de culturas impressionante.


Mercado brasileiro com preço em peso uruguaio

Lado esquerdo Av. Uruguay, direito Av. Brasil. Fronteira seca.

Antes de atravessar para o lado uruguaio da avenida que define a divisa dos países, tiramos algumas fotos e procuramos uma padaria pra tomar o café da manhã. Precisava utilizar a internet mas não encontrei nenhuma aberta, as coisas por lá começam a funcionar após às 9 da manhã.


Chui, lado brasileiro.

Carros antigos são facilmente encontrados nas ruas

Devidamente alimentados, atravessamos da Avenida Brasil para a Avenida Uruguay onde free shops e cassinos são destaque. Finalizamos assim, nossa viagem em território nacional.

Exatamente na Fronteira Seca.
O Uruguay nos esperava com grandes surpresas.

Uruguay e Argentina

Expedição de Inverno - Parte 7
Pedalar no Uruguay me deixava muito feliz, era um sinal de que estava no caminho certo para concluir meu objetivo de conhecer o país (ao menos uma parte), consequentemente seu povo, cultura e história. E poder ter o privilégio de estar mais próximo da natureza que se revelaria incrivelmente rica em todos os sentidos do Chuy até Montevideo.

Na saída do Chuy, fomos em direção à Ruta 9, que faz ligação até a capital. Somos informados que em poucos quilômetros haveria a aduana para registrarmos nossas entradas e assim ficarmos legalizados no país. Não demorou muito e aparece uma placa indicando a fronteira e a alfãndega.

Mais uma fronteira. Bienvenido al Uruguay


Expedição de Inverno 2010


Paso de Frontera. Alfândega uruguaia.

Confesso que estava super ansioso para passar na aduana e o motivo era a minha identidade (RG) que estava com mais de dez anos de emissão. Para entrar em países do Mercosul não existe muita burocracia, é preciso apenas a identidade desde que seja emitida em um prazo de dez anos. Como eu descobri a situação do meu documento apenas em cima da hora, até fui fazer um novo em Foz do Iguaçu mas ficaria pronto somente quando estivesse em Porto Alegre, isso se o roteiro inicial fosse mantido, assim minha mãe enviaria-o para a capital gaúcha através de sedex. Mas como o roteiro mudou e adiantei alguns dias, tentaria entrar assim mesmo.

Logo que chegamos no local somos orientados a ter o documento em mãos, entramos na sala principal que contava apenas com um funcionário para registrar as entradas/saídas do país. Mas tudo ocorre perfeitamente sem problemas, preenchemos alguns dados na permissão que foi carimbada, os dados são registrados no sistema e pronto. Não demorou dez minutos. Alívio.

Poderia continuar minha viagem tranquilo, pelo menos até a fronteira com a Argentina, mas se consegui entrar no Uruguay, os hermanos argentinos não iriam complicar as coisas.

Com o tempo bom, sol e nenhuma nuvem, estava frio, mas isso não era um problema. No Chuy trocamos o dinheiro em uma casa de cãmbio que também começou a funcionar a partir das 9h da manhã. Conversão é simples; 1 real vale 10 pesos uruguaios, 1 dólar é equivalente a 20 pesos. Troquei cerca de 250 reais. Até poderia ter sacado uma grana a mais no lado brasileiro, mas o bom de viajar com pouco dinheiro é que você praticamente se obriga a economizar e caso acontecesse uma emergência o cartão de crédito internacional estava disponível.

Na saída da casa de câmbio somos abordados por algumas pessoas curiosas sobre a viagem. E são elas que nos orientam a passar em locais imperdíveis como a Fortaleza de Santa Teresa e Punta del Diablo. Assim, após a passagem pela aduana, seguimos na pretensão de chegar na capital em 3 dias, Marco conseguiu uns dias a mais de folga, por isso poderia me acompanhar até Montevideo. Mesmo com o tempo limitado, não deixaríamos de conhecer tais lugares. Estávamos em uma área ecológica, histórica cultural e de balneários, conforme ilustrado na placa. Seguimos por todos os locais indicados.

Seguimos praticamente por todos os locais indicados na placa.

Em La Coronilla, primeira cidade após o Chuy, já é quase meio dia. Em um posto de combustível abasteço minha garrafinha de água, sempre da torneira, Marco prefere compra-la. Um funcionário indica um restaurante mas afirma que a comida não é barata. Fomos conferir, parecido com um quiosque na beira da estrada, o local não tinha ninguém, exceto sua dona e um gato que foi por ela espantado para não espantar a freguesia. No menu, minutas e outros pratos estranhos, tudo muito caro. Resolvemos seguir mais alguns quilômetros.

A Fortaleza de Santa Teresa, pertencente ao município de Castillos logo aparece de forma imponente às margens da rodovia. Resolvemos conferir de perto, isso levou uns 5 km ida e volta. Na histórica fortaleza, considerada a mais expressiva do país, sua construção é datada de 1762, e o local chama atenção por sua conservação, embora o tempo tenha modificado as cores dos muros principais, tingindo-os com um tom amarelado. As torres de vigilância, presentes em cada canto são um destaque a mais. No interior do forte encontra-se um museu histórico militar que fechado na segunda-feira não pudemos entrar.


Fortaleza Santa Teresa


Os espaços abertos no alto do muro é onde estão alinhados os canhões

O tom amarelado indica ação do tempo sobre a Fortaleza


As torres de vigilância, um destaque a mais.

Na frente da entrada da Fortaleza existe um cemitério ou camposanto como está inscrito no local. E ao lado, a Costa del Viajero, dois estabelecimentos abandonados a pouco tempo, ao menos foi a minha impressão. Aproveitamos e preparamos o almoço ali mesmo, era convidativo já que protegia da ação do vento que na estrada não estava a nosso favor. Enquanto almoçamos, turistas de carro aparecem para visitar a Fortaleza, muitos são brasileiros, identificados pelas placas dos veículos. Nas pastagens ao redor uma raça diferente de gado se faz presente, deixando a paisagem ainda mais interessante.

Enquanto fazíamos o contorno do forte, avistamos o monumento destinado ao Coronel Leonardo Oliveira, um dos responsáveis pela independência da região no século XIX frente aos portugueses. Estávamos observando a obra quando um carro parou e a motorista brasileira perguntou sobre a viagem e admirada com a resposta pediu permissão para tirar uma foto nossa. Reconhecimento é algo muito bom.


Ao fundo a entrada da Fortaleza


Data da construção, século 18.

Cemitério ou Camposanto


Costa del Viajero


Diferente raça bovina.

Após uma longa descida na volta para a Ruta 9, continuamos em direção à Punta del Diablo, no trevo de acesso perguntamos qual a distãncia para se chegar na praia e como eram apenas 5 km, não pensamos duas vezes e fomos conhecer o litoral uruguaio. Assim que aparecem as primeiras casas, surge também o magnífico Oceano Atlântico e sua imensidão. Conforme vamos nos aproximando notamos a distribuição diferente entre casas e terrenos que acabam quase invadindo a praia.


Punta del Diablo, placa no trevo de acesso.


Primeira imagem da imensidão do mar.

As casas construídas quase dentro do mar.

Na praia começamos a caminhar entre a areia e pedras registrando a natureza em uma de suas mais belas formas. Marco caminha por outra direção para tirar suas fotos, quando se aproxima me diz que um senhor lhe disse que atrás daquelas pedras (me aponta a direção) existia um pinguim. Ambos hesitamos em comemorar a presença de um animal tão raro de ser visto no Brasil, seria brincadeira do morador? O pinguim ficaria parado esperando a nossa chegada? Sei que continuamos em direção as pedras, claro que estava levando a Victoria comigo. Fiz várias paradas para fotografar a beleza do lugar que já se mostrava encantador.


As guerreiras.


Ao fundo o local onde estaria o pinguim.

Gaivotas

Ao lado do farol

Gaivotas fazem parte do cenário meio a fortes ondas que quebram próximas das pedras. Chego primeiro no local onde possivelmente estaria o pinguim e não vejo nada. Como a minha expectativa em vê-lo não era grande, desconfiado da informação recebida, não fico chateado de não encontra-lo e continuo apreciando o mar. Entre uma pedra e outra, a surpresa. Atônito com o encontro inusitado, era mesmo um pinguim e imediatamente tenho uma sensação indiscritível, mas muito boa. Logo aviso o Marco sobre a descoberta e me aproximo com cautela para evitar que fosse embora sem que o Marco visse com seus próprios olhos. Devagar tiro uma foto para a posteridade.


Encontro inusitado e inesquecível


Pinguim

O pinguim, um filhote possivelmente perdido dos demais membros da sua espécie, estava quase imóvel. Com a chegada do Marco nos aproximamos e esboçamos um carinho que logo é rejeitado, com paciência e cuidado insisto em passar a mão rapidamente, dessa vez não mostra reação contrária e tenho um momento único e inesquecível, não imaginava ter um encontro desse tipo tão cedo na minha vida e pra falar a verdade, nunca havia pensado sobre essa possibilidade, estava extremamente feliz, feliz com todas as letras e ainda sem acreditar no que estava vendo ao vivo e a cores.



Outro ângulo


Não é todo dia que encontramos um Pinguim pelo caminho...

Registramos o pinguim por vários ângulos, fizemos uma filmagem e após alguns minutos de admiração voltamos para pegar as bicicletas deixadas entre as pedras. Uma família brasileira estava se dirigindo para o mesmo local onde estávamos e de repente um grito: "leão-marinho!". Voltamos na mesma hora pra conferir e para nossa felicidade que já não era pouca, avistamos um filhote de leão-marinho sobre uma enorme pedra que constantemente era molhada pelas fortes ondas. Não acreditava no que estava vendo de novo. Enquanto isso ele fazia pose para as fotos, coçava a orelha que provavelmente tinha entrado água, estava cheio de graça. No Uruguay eu esperava ver esse tipo de animal apenas em Cabo Polonio, mas para aumentar as surpresas do dia fomos presenteados pela natureza.



Leão-marinho

Fazendo pose

Entrou água, culpa da onda.

Leão-marinho em Punta del Diablo.

Após tamanha beleza, voltamos para a estrada, mais 5 km até a Ruta 9, nesta, seguir o máximo possível na direção de Cabo Polonio, lugar extremamente bonito, sobretudo, pela presença dos leões-marinhos que tornam o ambiente único na América do Sul. Fiquei sabendo de sua existência a partir do amigo e cicloturista Ricardo que em sua expedição, Roda América, passou por lá e registrou suas belezas naturais que me deixaram curioso em conhecê-las.

A Ruta 9 é inicialmente plana, predominando retas e poucas curvas, mas aos poucos algumas inclinações diferenciam o relevo, subidas e descidas moderadas configuram a estrada que contém excelente acostamento.

Claro que pedalamos de noite também no Uruguay. E no escuro passamos por regiões pouco povoadas, rodovia sem muitas opções de parada e a fome já nos alertava para preparar a comida, independente do local. Mas resolvemos seguir. Não demora e estamos na entrada da cidade de Castillos, encontramos as placas indicando o caminho que deveríamos seguir, Aguas Dulces pela Ruta 16. Nos meus mapas após sair de Castillos ingressaríamos direto na Ruta 10, isso me fez ficar em dúvida sobre o caminho. Tarde da noite tivemos a sorte de encontrar um rapaz que esperava um ônibus no trevo, conversamos e nos explica que após a 16 surge a 10 em direção à Cabo Polonio. O jovem se estende na explicação e acaba nos confundindo um pouco com tantas informações.


Sentido Ruta 16

Lua iluminando o caminho.

No fim, nos despedimos do rapaz e seguimos pela Ruta 16, sentido Aguas Dulces, cerca de 15 km de Castillos. A estrada agora era uma escuridão total, iluminação apenas da lua, aparentemente ninguém habitava os campos ao lado da rodovia. O frio era intenso e eu esperava ansiosamente por chegar em nosso destino, ficar um pouco mais aquecido e alimentado, estava morrendo de fome. A ruta 16 apresenta várias subidas, mas o trecho até Aguas Dulces é pequeno e logo chegamos na cidade.

O jovem encontrado anteriormente nos disse a respeito de um camping na entrada do município, mas não saberia dizer se estava em funcionamento nessa época. Antes de chegarmos no camping indicado que aparentemente estava fechado, nos deparamos com um animal atravessando a pista, era uma espécie de marsupial noturno, parecido com um gambá que logo correu para a árvore mais próxima, Marco a fim de tirar uma foto do animal, deixa a bicicleta na pista e corre em sua direção, iluminado-o com o farol da bicicleta consegue um ótimo clique do bichinho que no mínimo deve ter se assustado com a movimentação.

Marsupial noturno

Seguimos pela pacata cidade. Assim que aparece as primeiras casas com seus extensos jardins, perfeitos para acampar, pergunto ao Marco se tem a manha de passar a noite em um desses locais, com sua resposta positiva me dirijo à primeira casa da rua, a intenção era simples, pedir autorização para acampar.

Na casa, bato na porta da sala onde luzes e alguns sons indicavam a presença de pessoas. Alguém aparece na janela e logo ouço a pergunta; "quem é?" respondo; "Soy un brasileño viajando en bici y neces .." Quando então, o dono da casa abre a porta. Explico sobre a viagem e a primeira reação dele e de quem nos atende é sempre pensar, olhar e finalmente nos depositar um pouco de credibilidade em toda a história contada. Enfim, nos permitiu acampar em seu quintal.

Era muito tarde, quase 11 horas da noite e não demoramos em estacionar as bicicletas no local permitido para acampar, quando o dono da casa, José e sua esposa aparecem novamente e ele diz que tem uma idéia melhor e pede para segui-lo. Era uma espécie de quarto de visitas, misturado com despensa que ficava na garagem nos fundos da casa, onde havia pia, cama, colchões, mesa e até mesmo banheiro. Um verdadeiro luxo para a ocasião. A mulher ainda nos pede desculpa pelo local não estar arrumado, ajeita algumas coisas e repete várias vezes que podemos utilizar o necessário.

Quarto de luxo
José nos explica sobre o caminho até Cabo Polonio e os horários de visitação do parque, nos diz sobre as belezas do lugar e que há poucos dias uma baleia foi avistada na região. Ficamos ainda mais seguros de que uma visita se fazia extremamente necessária em Cabo Polonio. Conversamos mais um pouco sobre a viagem e o casal nos deixa a vontade, desejando boa noite.

Era muito mais do que esperávamos e eu particularmente não vou esquecer tamanha hospitalidade daquela família. Aproveitamos para fazer um jantar de verdade, na real era uma macarronada com os itens comprados em um pequeno mercado em Punta del Diablo; macarrão, sardinha, salame e molho de tomate, ficou uma delícia. E ainda jantamos na mesa, parece simples, mas só quem vive o dia-a-dia na estrada sabe o valor que determinadas coisas passam a ter. Lavamos a louça e fomos dormir, eu peguei um colchão de solteiro, coloquei no chão e o saco de dormir por cima e capotei. Marco fez o mesmo, mas em um colchão sobre a cama de casal.

Acordamos cedo no dia seguinte para aproveitar o máximo do tempo para conhecer Cabo Polonio. Deixamos o quarto arrumado do jeito que encontramos e um bilhete agradecendo pela hospitalidade. Era cedo e possível que todos ainda estivessem dormindo. Saimos em direção à Cabo Polonio.


Casa da família uruguaia

A porta da garagem onde passamos a noite. De manhã o frio me deixava todo encolhido.

Logo na saída da cidade um trevo indica finalmente a Ruta 10, desejada e recomendada por amigos ciclistas por ser litorânea e mais plana do que a Ruta 9. No caminho vamos encontrando paisagens com ovelhas que pastavam meio a centenas de butías pelos extensos campos onde algumas áreas se encontravam alagadas. Pássaros também foram apreciados nos quilômetros até as proximidades de Valizas, local onde passamos por uma estreita ponte sobre um rio que certamente fazia ligação com o mar. O ambiente calmo indicava um vilarejo de pescadores.

Fauna


Flora


Ponte com passagem para apenas um veículo.

Vilarejo de pescadores

Dez minutos após passar a ponte, finalmente estamos em Cabo Polonio, avançamos um pouco e surge ao lado esquerdo da estrada o local que faz o transporte até a praia. Nos dirigimos à bilheteria e um homem nos explicou sobre os horários, o próximo tinha saída marcada para às 11 horas, retornando meio dia e às 2 da tarde. Compramos o bilhete, 150 pesos uruguaios, ou seja, 15 reais, incluindo ida e volta. Deixamos as bicicletas encostadas ao lado da bilheteria onde o funcionário disse ser seguro e não ter problema pois sempre estariam sendo vigiadas.

Finalmente em Cabo Polonio
Logo o veículo 4x4 aparece e subimos, o motorista nos avisa que é possível ir sentado no alto do Safari Express, nome estampado na lataria. A aventura estava começando. O transporte através de um 4x4 se faz necessário em razão do caminho marcado pelas dunas, trilhas mostram a direção a seguir. No alto, vamos curtindo o visual meio a muita risada, temos que segurar firme para não cair, balança demais até chegar na praia, mas achamos tudo interessante e estávamos nos divertindo muito.

Safari Express 4x4
Curtindo o visual

Caminho entre as dunas

Em alguns minutos estamos na praia, mas o passeio no 4x4 ainda não chegara ao fim, andamos um bom trecho e avistamos o farol no horizonte. Meia hora depois de embarcarmos no safári ele nos deixa no centro do pequeno vilarejo, próximo ao farol. Ele voltaria às 12 e 14 horas, resolvemos regressar na segundo opção, assim o tempo para conhecer o local seria maior.

Visão de Cabo Polonio no alto do Safari Express

Cabo Polonio é um lugar inópisto, poucas pessoas moram fixamente no vilarejo, sobretudo, pescadores, artesãos e funcionários do farol. Mas sua paisagem singular dá um ar naturalista ao ambiente. "A peculiar geografia é o segredo que garante a preservação da natureza, além de embalar a vida dos moradores." O local ainda carece de energia elétrica e água encanada. Para além disso, Cabo Polonio é conhecido por ter uma das maiores colônias de leões-marinhos do mundo, essa era a principal razão da nossa visita.

Vamos caminhando pela praia onde aos poucos rochas, gaivotas e crustáceos vão aparecendo. Encontramos um casal da França, trocamos algumas palavras e tivemos a notícia que a menos de uma hora um leão-marinho tinha sido visto naquelas proximidades. Continuamos caminhando na intenção de encontra-los, andamos, andamos e nada.

Caminhada pelas praias de Cabo Polonio
Enquanto isso, vamos apreciando a natureza, as aves, o mar e toda a vida presente no ambiente. Encontramos pinguins também, porém esses estavam sem vida. Um filhote de leão-marinho também morto. Curtindo o visual, avançamos nas proximidades do farol que "orienta os navegadores da região", muitas são as rochas entre o mar e a areia, algumas muito altas por sinal.


Registrando as belezas da natureza

Curtindo o visual, ao fundo o farol de Cabo Polonio

Após subir uma dessas pedras, surpresa, dezenas de leões-marinhos descansam sobre uma extensa área rochosa, são vários e de todos os tamanhos. Eles fogem das águas geladas da Antártida e repousam na região. Ficamos minutos observando o banho de sol sobre as rochas, o som de alguns inquietos, entre eles o macho da turma que diferente pelo seu tamanho se mostrava imponente diante o grupo. Poucos arriscavam um mergulho no mar enquanto a maioria descansava.

Dezenas de leões-marinhos

O maior é o macho, imponente.


Carinho


Poucos arriscam um mergulho.


Colônia de leões-marinhos

Estava feliz em presenciar esses animais diante de tal natureza com meus próprios olhos. Após esse encontro, resolvemos subir o farol, aberto ao público, o custo da entrada é de R$1,50. Subimos os degraus até atingirmos os 40 metros de altura. Um funcionário nos acompanhou até o topo. No alto a visão é sensacional, sendo possível ver todo o vilarejo, as praias, ilhas e principalmente os leões-marinhos de um outro ângulo.


O pequeno vilarejo de Cabo Polonio


Ondas

As ilhas

Nos dirigimos para a rua principal do povoado onde se encontra o comércio local, em um pequeno mercado, compramos pão, queijo, presunto e refrigerante para almoçarmos. Marco com muita fome, comeu enquanto esperava o safári que nos levaria de volta. Com as bolachas que levei, estava sem muita fome e resolvi comer depois.

Estávamos deixando esse maravilhoso lugar que merece um retorno com certeza. E fica aqui minha recomendação pra você que está visitando o Uruguay, não deixe de conhecer Cabo Polonio. Na volta, diferente da ida quando tinha apenas Marco e eu no caminhão, agora outros turistas e seus mochilões faziam parte dos passageiros. Todos, incluindo a gente, estavam na parte de baixo do veículo.

Na chegada pegamos nossas bicicletas e seguimos com a sensação de que a viagem estava sendo perfeita e diante da disponibilidade de tempo, conhecendo o que nos era permitido. Assim seguimos pela Ruta 10, sentido La Paloma. Antes, nos deparamos com um túnel natural, formado por enormes árvores que cobriam a estrada por alguns metros nas proximidades de Antoniopolis. Em La Paloma, pedimos informações sobre a possibilidade de seguir para Punta del Este pela Ruta 10. A resposta foi o que imaginávamos a partir das dicas do jovem lá no trevo de Castillos, não seria possível seguir pela 10, teríamos mesmo que seguir pela Ruta 15 rumo a Rocha.


Túnel natural
Ruta 10 - Antoniopolis

Desse modo deixamos a Ruta 10 para trás e começamos a pedalar pela 15, sobe e desce com acostamento não muito bom, mas sem maiores problemas. Meu almoço foi feito só por volta das 6 horas da noite quando paramos na beira da estrada e fizemos nosso lanche diante de um belo pôr-do-sol. Pretensão era chegar em Piriapolis, pedalando madrugada a dentro, foi esse o combinado para que pudéssemos visitar Cabo Polonio sem comprometer o roteiro.

O frio era intenso quando chegamos em Rocha, paramos em um posto Esso pois o Marco precisava ligar para casa, seu último contato havia sido no Chuí. Após a ligação, fica mais tranquilo e sugere que paremos na cidade para pernoitar. Isso implicava chegar em Montevideo em quatro dias, um a mais do que o planejado. Aceito a sugestão e paramos no Hotel Quarahy às margens da Ruta 9, sim, voltamos pra essa rodovia em Rocha. O hotel é simples e a diária sai pouco mais de 20 reais. Ao lado, compramos algumas coisas no Supermercado Ruta 9, estabelecimento bem completo com várias opções de produtos. Na falta de macarrão instantâneo, comprei 1kg de macarrão, sardinha, atum e molho de tomate. Uma comida com mais sustância.

No dia seguinte, seguimos pela Ruta 9 sem um destino certo, na verdade a pretensão era chegar em Piriapolis, mas ainda não sabíamos por qual caminho. Em La Paloma um senhor nos avisou que no km 187 haveria uma entrada que nos levaria para a Ruta 10. E realmente na quilometragem indicada apareceram as placas indicando El Caracol e Laguna Garzon, esta última seria atravessada por balsa.

Ruta 9. km 187, acesso alternativo para a Ruta 10.

Tinha uma questão, esse caminho alternativo era estrada de terra. Marco aceitou o desafio e seguimos, afinal, a Ruta 10 estava a pouco mais de dez quilômetros. Conversei com o Marco sobre a falta de conhecimento a respeito das condições da estrada até Punta del Este, mesmo assim estávamos dispostos a encarar o que viesse pela frente.

Saindo da Ruta 9 você vai encontrar um trecho de terra com longas subidas, existem pedras na estrada mas nada que ameace perigo de furar o pneu. Dez, quinze quilômetros depois você vai chegar na Ruta 10, não haverá nenhuma placa informando quando você estara em tal rodovia. Mas vai aparecer duas placas, siga para a direita, sentido Laguna Garzon, El Caracol. Ao fundo observa-se o mar. Dobrando a direita você esta na Ruta 10, percorrendo mais uns 10 km você chega ao balneário El Caracol e mais uns 5km na balsa que atravessa Laguna Garzon. Todo esse trecho de aproximadamente, 25, 30 km é realizado em estrada de terra. Após o ingresso na Ruta 10 a estrada é plana, ao lado do mar e continua com pouca presença de veículos.


Uma das subidas no caminho para a Ruta 10.


Chegando na Ruta 10, sentido El Caracol para chegar em Punta del Este. Observa-se o mar ao fundo.

Marco pedalando na Ruta 10 ao lado do mar.


Balsa em Laguna Garzon

O serviço para atravessar a Laguna é gratuito, rapidamente se faz a travessia. Descendo da balsa o asfalto retorna e a próxima cidade é José Ignacio, casas luxuosas beira-mar surgem na paisagem que também tem o imenso oceano como companhia. O vento contra limita nosso avanço em um ritmo maior. Na falta de um restaurante pelo caminho, decidimos parar em uma garagem na frente dessas casas beira-mar que aparentemente estava sem ninguém, depois um senhor apareceu, mas preparamos o almoço sem problema. Na saída, o caseiro ao ver a bandeira do Brasil no meu alforje questiona de qual lugar estávamos vindo. Respondemos e fizemos questão de ressaltar que deixamos o ambiente em que almoçamos limpo.

Almoço em uma garagem às margens da Ruta 10

Seguimos costeando o mar e logo aparece La Barra com casas ainda mais luxuosas, não demora e atravessamos uma ponte toda ondulada e estamos em Punta del Este com seus grandiosos prédios, hotéis e cassinos. Vamos pedalando pela ciclovia. Estava curioso para saber se era o caminho certo para um dos mais famosos pontos turísticos da cidade; La Mano, obra do chileno Mario Irrazábal, cinco dedos saindo da areia, representando "a presença do homem surgindo na natureza", na visão do artista e que se encontra na Praia Brava. Alguns quilômetros depois, finalmente estamos diante de La Mano, lugar disputado para tirar uma foto, registramos o momento, conversamos com algumas pessoas, incluindo brasileiros, não raros de se encontrar no país, sobretudo em Punta del Este. Muitas pessoas nos disseram antes da viagem que a cidade não era das mais acolhedoras, contudo, não tenho do que me queixar, todos, inclusive a quem pedimos informações, foram bem simpáticos.

Punta del Este ao fundo

Chegando na ponte ondulada em Punta del Este.

Finalmente, Punta del Este.


Ciclovia em direção aos luxuosos prédios.

Na famosa, La Mano.

Esperando para fotografar La Mano.

Pedimos informações sobre como chegar na Interbalnearea (IB), rodovia para Montevideo. No caminho vamos passando pelas ruas da cidade até avistarmos o famoso Cassino Conrad, eu na verdade não conhecia, mas o Marco disse que era famoso e passava na abertura do programa do Amaury Jr. e etc. Enfim, que é luxuoso isso não resta dúvidas.


Cassino e hotel Conrad

Também não é todo dia.

 
O pôr-do-sol significava mais uma noite pedalando, mas o cansaço não era maior do que a felicidade de estar ocorrendo tudo perfeitamente bem. Nosso destino era Piriapolis, uns 30 km de Punta del Este. Pela IB vamos seguindo até o trevo de acesso para a cidade. Ficamos em dúvida em relação à distância para se chegar realmente em Piriapolis, pois no mapa indica que o município está no caminho. Somos então informados que a distância seria de aproximadamente 7 km e depois uma outra estrada com a mesma distância encontraria com a IB novamente, era essa a nossa dúvida.

Sentido Piriapolis, subidas e descidas constantes até a chegada na cidade, perguntamos qual direção seguir para encontrar um hotel, somos orientados a um que estava fechado, acredito que sem hóspedes também. A outra alternativa era o Hotel Arenas, 30 reais a diária sem café da manhã. Acabou sendo o pior hotel da viagem, não tinha toalha, papel higiênico e a água aquecida a gás não durou dez minutos no banho. Hospedados, fomos ainda de noite na lan house na intenção de passar as fotos de um para o outro, mas infelizmente estava fechando e deixamos pra fazer isso no dia seguinte.

De manhã, seguimos para a lan house e soube que o camarada Ricardo, residente em Buenos Aires não estaria na cidade para uma possível hospitalidade anteriormente combinada. Tudo bem, passamos as fotos, mandamos notícias e seguimos pra Montevideo, na orla de Piriapolis o que me chama atenção são as árvores sem folhas demonstrando ação do rigoroso inverno sobre a natureza.

Piriapolis

Logo estamos novamente na Ruta Interbalnearea para completar os últimos quilômetros de pedal no Uruguay. O tempo amanhaceu cinzento, nublado e aos poucos o sol foi aparecendo sem aumentar a temperatura. Almoçamos nas proximidades de Atlántida, no menu muitas opções, infelizmente não para nossos bolsos, pedimos ao garçom um prato barato e farto, nos recomenda um lanche, na verdade dois pães com milanesa e uma porção de batata fritas. Pensei que não iria saciar minha fome, mas pelo contrário, fiquei muito satisfeito e o Marco nem aguentou comer tudo, fiquei com a parte dele, seria um desaforo jogar fora. Para beber, pedimos um refrigerante de Pomelo, diferente e pouco conhecido no Brasil, mas muito consumido na Argentina e Uruguay, eu já conhecia em uma visita a Puerto Iguazu/Arg.

Refrigerante de Pomelo.

Na IB o trânsito é maior, a pista é duplicada e aparece o primeiro pedágio da viagem em território uruguaio, passamos sem precisar pagar, é claro. As cidades se tornam mais próximas e notoriamente são maiores, isso deve se explicar por estarmos mais próximos da capital, Montevideo. Sem problemas vamos seguindo enfrentando uma ou outra subida, às margens da rodovia avistamos alguns ferros-velhos, um deles chama atenção pela quantidade de peça antiga desde banheiras até bombas, isso mesmo, material bélico. A princípio passamos sem registrar o local, mas Marco não aguentou e retornou quase 1 km para clicar o curioso lugar.


Ferro-velho, de banheira a material bélico.

Interbalnearea, sentido Montevideo.
Não demorou e logo estávamos diante do aeroporto internacional de Montevideo. Na rodovia uma placa indica que após treze dias de muitas aventuras finalmente chegamos na capital. Avançamos os últimos quilômetros pela IB quando aparece um trevo, seguimos pela esquerda e perguntamos algumas vezes se era mesmo o caminho correto, afinal não seria legal ficar perdido em uma capital, justamente nessa altura da viagem. Mas pra nossa felicidade é a direção certa.


Chegada na capital do Uruguay


Sí, Montevideo.

E com uma temperatura de 9ºC. às cinco horas da tarde, tempo aberto e sol o dia todo, resumindo como tinha sido a nossa viagem até então, muito fria, mas somente em relação ao clima. Pois estávamos com espírito renovado e felizes pelas belezas que encontramos durante o caminho e sobretudo, com o aprendizado adquirido. Na entrada da capital, uma das primeiras coisas que chama atenção é um globo instalado no canteiro que separa as duas vias. Quando vejo o nome, Avenida Italia, esse era o local que o Labatut lá no Rio Grande do Sul pediu para tirarmos uma foto assim que chegasse em Montevideo. A promessa estava cumprida.


Montevideo, 17:00.


Globo na Avenida Italia.


Pôr-do-sol na capital uruguaia.


Montevideo

As avenidas são movimentadas e o trânsito em Montevideo é típico das grandes cidades, por isso optamos em seguir por um canteiro paralelo que parecia uma espécie de rua, ciclovia e jardim tudo junto, tinha alguns buracos mas era melhor do que ficar entre os carros, caminhões e ônibus que no horário de pico eram muitos por todos os lados. Quando estava acabando esse caminho lateral ouvimos mais uma buzina nos cumprimentando, mas dessa vez era uma motocicleta e pra nossa surpresa um brasileiro conduzia o veículo. Era um senhor de Pelotas/RS que estava mora no Uruguay há alguns anos e trabalha na construção civil. Assim como outras pessoas questionadas, nos disse que bastava seguir em frente para chegarmos na rodoviária. Também nos fala que podemos seguir na rua pela via destinada aos ônibus. Nos despedimos e seguimos pela indicação, contudo, além dos ônibus, muitos carros acabam utilizando esse espaço.

Entre um longo trecho vamos pedalando entre carros e principalmente os ônibus, atenção redobrada nos locais de parada do transporte público. Nas calçadas, pessoas bem agasalhadas era sinal de que não éramos os únicos a sentir frio. A princípio Marco ficaria em Montevideo, por isso seguimos para a rodoviária conhecendo um pouco da capital uruguaia.

Quando finalmente chegamos no terminal rodoviário, local muito movimentado, Marco fica olhando as bicicletas do lado de fora enquanto entro para acessar a internet e ver a resposta do escritor Eduardo Galeano, autor da conhecida obra, As veias abertas da América Latina. Ricardo, amigo que mora em Buenos Aires conhecia Galeano da época em que esteve em Montevideo e foi através dele que entrei em contato com o escritor para um possível encontro e ter o privilégio de conhecê-lo pessoalmente. Se a resposta viesse a ser positiva, ficaria um ou dois dias a mais na capital antes de seguir para Colonia del Sacramento. Ao entrar na internet, por email Galeano pede desculpas e diz que vai ter que ficar para uma próxima vez em razão de sua agenda cheia.

Sem motivos específicos para ficar em Montevideo, vou até as agências de viagens para encontrar alguma passagem para o Marco que deveria estar o quanto antes no Brasil. Mas nenhuma empresa tinha linhas imediatas para São Paulo, somente no domingo e era sexta-feira. Como alternativa já tinha comentado com o Marco de seguir para Buenos Aires, onde certamente teria linhas disponíveis. Verifico as passagens pela Colônia Express e Buquebus que fazem a travessia do Rio da Prata, mas os horários são apenas para o dia seguinte, volto e comunico essas informações para o Marco. Assim, estou disposto a seguir com ele direto de Montevideo para Buenos Aires, uma vez que por economia iria pedalar até Colonia e então atravessar o Rio do Prata.

Fico olhando as bicicletas enquanto Marco vai ver melhor sobre a possibilidade de ir direto para a capital argentina, retorna dizendo que existe uma alternativa pela Buquebus que nos levaria de ônibus até Colonia del Sacramento e depois de navio (Eladia Isabel) para Buenos Aires. O horário do ônibus estava marcado para 1 hora da madrugada e às 4:30 era a partida do Eladia. Assim por volta das 8 horas já estaríamos na Argentina. O valor não foi baixo, custou 87 reais. Gastei meus últimos pesos uruguaios.

Das 8 horas da noite até 1 hora da madrugada ficamos no local de embarque esperando o ônibus, seria necessário estar no guichê da empresa uma hora antes para fazer o check-in. Não desmontamos as bicicletas e resolvemos arriscar embarcá-las assim mesmo, não foi uma boa idéia. Na hora que o ônibus finalmente chega, aliás, são vários ônibus porque são centenas de passageiros, na hora de embarcar as bicicletas somos orientados a tirar os pneus para ocupar menos espaço no bagageiro. Marco tira até o alforje. E assim elas são colocadas no ônibus.

Aguardando o ônibus na rodoviária de Montevideo.


Aguardando o ônibus na Rodoviária de Montevideo.

Embarcamos no ônibus e três horas depois já estamos em Colonia del Sacramento, somos levados direto ao local de embarque para o Eladia Isabel, é neste imenso lugar que registramos a saída do Uruguay e ganhamos a permissão para ingressar na Argentina. Novamente não tenho problemas com meu documento. Após passar pela imigração ficamos esperando o anúncio do embarque que aconteceu exatamente às 4:30. Assim que autorizados, nos encaminhamos para a embarcação, ao avista-la ficamos surpresos por sua grandiosidade. E ainda mais perplexos quando chegamos ao seu interior, realmente de luxo. As bicicletas são levadas diretamente do ônibus para o navio por funcionários da Buquebus.

Interior do Eladia Isabel

Agora com as luzes apagadas.
Após a saída um pequeno lanche é servido e logo depois as luzes são apagadas, horas mais tarde estamos chegando no Puerto Madero em Buenos Aires, somente com o dia amanhecendo conseguimos fotografar o Rio da Prata e avistar os prédios que sinalizavam a arquitetura da capital argentina. Uma passageira uruguaia conversa conosco e fala um pouco mais sobre o caminho necessário para se chegar no Terminal de Retiro, rodoviária que o Ricardo avisou que deveríamos comprar as passagens para o Brasil. Essa senhora ainda faz uma lista dos pontos turísticos imperdíveis.
Chegada em Puerto Madero - Buenos Aires

Frota da Buquebus
Canal em Puerto Madero, ao lado esquerdo a parte moderna da capital argentina.
Frota Buquebus

Fragata Libertad

Depois de atracar no porto, descemos para pegar as bagagens que aparecem por uma esteira, processo parecido com aqueles dos aeroportos, mas como a nossa bagagem era especial, tive que pega-la a partir de uma porta lateral, a Victoria estava inteira pra minha sorte. A bicicleta do Marco sem alforje se tornava um menor volume e assim acabou aparecendo na esteira, pena que não tiramos uma foto, foi engraçado ver o quadro, depois os pneus e por fim o alforje correndo pela esteira.

Pra variar, chegamos na Argentina com chuva, isso não nos impediu de pedalar pelas ruas movimentadas da capital. Pedimos informações para chegar no Terminal do Retiro, que ficava a a uns 3 km do local onde desembarcamos. Pelo caminho encontramos um trânsito complicado, muitos caminhões deixavam o trânsito ainda mais tenso na região portuária e a chuva não ajudava. Mas pouco tempo depois, por volta das 9:30 da manhã estávamos na rodoviária .


Chegada com chuva em Buenos Aires


Argentina, nosso último destino da Expedição de Inverno.


Pedalando com chuva pelas ruas movimentadas da capital em direção à rodoviária do Retiro.

Trânsito complicado na região do porto.

No imenso terminal de ônibus de Buenos Aires fomos verificar a disponibilidade de passagens para Foz do Iguaçu e São Paulo, a Pluma ainda tinha algumas poltronas vagas para Foz no horário das 18:30 , contudo, não realizava vendas no cartão de crédito. Fui obrigado a procurar uma lan house para efetuar a compra/pagamento via internet. Pra isso, pego um dinheiro com o Marco para ir no cyber (como os argentinos/uruguaios chamam), pois meu dinheiro foi gasto na passagem do Buquebus. Marco aproveita e pede para trocar uma certa quantia, a questão era encontrar uma casa de câmbio já que não existe no Terminal, a mais próxima está a cerca de três quadras da rodoviária, mas na verdade fui achar apenas na Avenida Florida, isso fica no centro uns cinco km de distância. Era longe, andei esse trecho a pé, na chuva, mas gostei, estava no meio da multidão, conheci um pouco mais do centro de Buenos Aires e finalmente comprei a passagem.

Grandes e antigos prédios fazem parte da região central.

Voltei para o terminal e peguei minha passagem no guichê da Pluma que infelizmente não dispunha de vagas para São Paulo. Fui verificar na empresa Crucero del Norte e por sorte tinha uma reserva que não havia sido confirmada, assim retornei rapidamente para onde o Marco estava cuidando das bicicletas e avisei para ir correndo com seu documento comprar e retirar a passagem. Logo depois volta com o bilhete em mãos, o ônibus tinha horário para sair às 20:30, ou seja, estávamos mais tranquilos, principalmente o Marco. Então começamos a desmontar as bicicletas. Tirando os pneus e alforjes, no meu caso, fiz a proteção do quadro com a coberta e assim já despachando na Pluma que se encarrega de fazer o embarque das bagagens. Marco opta por embalar a bicicleta em um lugar específico (25 reais) na própria rodoviária e depois deixa-a no guarda volume (guarda-pack).

Terminal de Retiro, Buenos Aires.

Com isso já passava de meio-dia e tínhamos algumas horas vagas até o embarque, restava-nos um tempo para conhecer pelo menos os principais ou mais conhecidos pontos turísticos da cidade. Fomos pegar um ônibus para a região da Casa Rosada, mas a linha 50 demorou para aparecer e resolvemos pegar um taxi.

E pela bela e charmosa Buenos Aires, conhecemos a famosa Casa Rosada, sede da presidência da República Argentina que ainda é local de manifestações políticas e artísticas. E "tem sua cor atribuída ao fato de na época de sua construção as tintas mais baratas serem feitas a base de sangue de vaca, tendo a cor rosada."


Casa Rosada, sede presidencial.


Diante da importante Casa Rosada.

Defronte a Casa Rosada. Estátua equestre de Manuel Belgrano, autor da bandeira argentina
Logo a frente estamos na Praça de Maio, a principal do centro de Buenos Aires, palco de manifestações políticas desde a época colonial. Ainda é onde "desde a década de 70 as Mães da Praça de Maio se reúnem com fotos de seus filhos desaparecidos pelos militares durante a ditadura argentina" em busca de justiça.


"Pirâmide de Maio coroada por uma representação escultórica da Liberdade."


Manifestação das Mães da Praça de Maio

Diante do movimentado centro com sua arquitetura moderna, admiramos a Catedral e seguimos para o Obelisco, "monumento comemorativo, típico do Antigo Egipto, constituído de um pilar de pedra em forma quadrangular alongada e sutil, que se afunila ligeiramente em direção a sua parte mais alta" construído para comemorar os 400 anos da fundação da cidade, sem dúvida um monumento que chama atenção no cruzamento das avenidas Corrientes e 9 de Julho, esta última considerada a principal de Buenos Aires.

Avenida Corrientes

Obelisco. Av. 9 de julho.

Diante de muita chuva e frio, estava de chinelo meio a uma multidão onde todos se encontravam devidamente calçados. Mas no meu caso, o chinelo tinha uma explicação, pois não iria viajar com o tênis encharcado e assim foi retirado e colocado no alforje que tinha sido despachado, ficando apenas com o chinelo, mas isso não foi nenhum problema. Afinal, conheci tudo o que pretendia conhecer, estava infinitamente feliz. Assim, pegamos um taxi para regressar à rodoviária e aguardar o horário de partida. Aqui vale ressaltar que o taxista era muito audacioso no trânsito e parecia ter saído direto do filme Velozes e Furiosos para as ruas de Buenos Aires.

Caminhando de chinelo
Nossa viagem finalizou com exatos 1680 km de Curitiba até Buenos Aires, passando pelo Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Uruguay e Argentina. A Expedição de Inverno estava concluída com sucesso e sem dúvidas entrou para a história como uma das melhores aventuras com “lembranças que guardarei até quando minha memória permitir e uma experiência que é pra sempre, aprender a valorizar a vida e a quem amamos” como gosto de dizer.

Hora de voltar. Adiós Buenos Aires.

Agradeço ao grande camarada Marco pela companhia durante a viagem e amizade dos últimos tempos, foi responsável sem dúvida para que a Expedição de Inverno se tornasse inesquecível e concluída com sucesso total. Pois um companheiro de viagem sai junto e chega junto no destino final.

Grande camarada Marco.

Após 20 horas de viagem estou novamente em casa, Foz do Iguaçu/PR, mas a viagem não acaba, ela continua através das histórias, fotos e lembranças de cada momento.
No mais, agradeço a todas as pessoas que de alguma forma me apoiaram para a concretização de mais uma viagem memorável.

“Hasta la Victoria Siempre"